18.6.17

A esplanada era outra

A brisa salvou-me do calor da tarde, numa esplanada [tenho um mapa completíssimo de esplanadas, leitora]. O meu café ia a meio quando ela chegou, que eu ouvi, no silêncio das horas de calmaria: «Um café cheio e um copo com gelo». Ora de café cheio percebo eu, que é o que dá tempo para escrever uma minudência inconsequente, mas eu, que havia recusado a oferta de pedras de gelo para a minha água efervescente com rodela de limão, não acompanhei a necessidade de tal combinação [ah, a minha ingenuidade]. Sentou-se na mesa ao lado [nestas histórias, reparará a leitora, toda a gente se senta na mesa ao lado], despejou o café para dentro do copo com gelo e mais depressa do que eu levo a escrever a palavra «minudência» engoliu a frankenbebida de um trago. Abalou como chegou. Em cima da mesa ficaram um maço de tabaco vazio e um copo com umas pedras de gelo com cor de café. Dona Aureliana não estava nem por perto, que a esplanada era outra. Por perto apenas o meu espanto e a brisa. E no fim, apenas a brisa, que acabou por levar o espanto com ela.