21.8.17

Il mar è perfetto

-- Mamma, oggi il mar è perfetto -- anuncia, por detrás de mim, o petiz acabado de chegar, aos pais.
O jovem de óculos azuis, a condizer com os calções banho, sentado numa cadeira perto, em pose de adorador do sol, tem tatuado no braço, em cursivo: -- Thank you mother for my life.
Uns metros mais adiante, uma senhora de chapéu de palhinha levou a cadeira até dentro de água e assim permanece, pernas felizes, dedinhos dos pés dançantes.
O vizinho do meu lado esquerdo, exemplar queirosiano, Conde de Abranhos, recosta-se nos prazeres fumegantes de um havano.
Oggi il mar è perfetto, na verdade.

20.8.17

Linha d'água

As dez da noite passaram já, o vento da tarde também, e ela está sentada sozinha no vasto areal, numa cadeira a poucos metros da linha de água, com o telefone de capa rubra junto à face, rodeada de toalhas e havaianas alinhadas como aviões na pista, perscrutando o mar suavemente negro. Deve ser avó: só uma avó teria tal serena paciência. Não vejo os netos no mar, mas tenho a certeza, apostaria, que ela sabe a posição exata de cada um deles, como um grande mestre que joga uma partida de xadrez, e ganha, vendado, na escuridão total.

19.8.17

O Superman

O Duque não apareceu. Mas, em contrapartida, vi Clark Kent, há pouco, a passear o cão, ao lusco-fusco. Perdeu cabelo, está quase calvo, a musculatura mirrou, mantém os óculos, é certo, e apenas um sinal o denuncia: as chinelas de quarto com o S vermelho em fundo amarelo, rodeado de azul. As meias pretas de meio cano, que quase cobrem as pernas até ao término dos calções, complementam a camuflagem. Não fora a minha atenção, e continuaria tão incógnito como até aqui.

[O título devo-o a Laurie Anderson.]

O Duque

Estou sem saber, mas repleno de curiosidade, se hoje verei o Duque. De branco vestido, dos cabelos aos sapatos, contemporâneo da senhora nonagenária de cabelo rubro, foi ele que a foi buscar à sua praia de água doce. Epítome de cortesia, deu-lhe o braço, transportou-lhe a cadeira, conduziu-a a ela de regresso dos areais, com mil ternuras, mais cuidados, ainda. Um Duque de coração alvíssimo, este Senhor Duque.

Globalização

Na música de fundo do restaurante de Fine Asian Cuisine descortino, devidamente embalados em flautas de bambu, os acordes de Londonderry Air, a melodia, para os não irlandeses, provavelmente mais conhecida como Danny Boy.

Multiculturalismo

A mãe de numerosa família que chega à praia com o sol dolente do entardecer, e cobre a cabeça com um hijab branco e o corpo com traje longo e amplo a condizer, e assim permanece, descobre os pés numas Havaianas Brasil, brancas também. As do esposo, que vem de polo e calções, são do mesmo modelo, mas em preto.

18.8.17

O Senhor Chen

O Senhor Chen, que só conheço de pequenos cartazes fotocopiados e colados em postes, desapareceu no passado dia onze. O Senhor Chen tem cinquenta e oito anos, Alzheimer e diabetes. Cada cartaz com dois retratos do Senhor Chen, três linhas descritivas e um número de telefone, enche-me de cuidados: já terá aparecido? Se sim, porque permanecem os cartazes? Tirando telefonar para o número que lá está, nunca saberei o desfecho da história do Senhor Chen. Pior, nunca saberei, sequer, se a história do Senhor Chen teve desfecho.

Pergaminho

A pele é como um pergaminho fino e enrugado, e o biquini azul contrasta com o cabelo onde o vermelho e o branco se batem, bravamente. É nonagenária, assim estimo. A cadeira, azul também, colocada ao lado do chuveiro de água doce, confundiu-me, até ver a ocupante levantar-se, refrescar-se e voltar a sentar-se nela. Aquele chuveiro é o seu mar privativo. Passado o areal quente, o outro mar, o público, azul, verde e salgado, ronrona docemente, fingindo-se desentendido, o grande dissimulado.

17.8.17

Bastava um minuto

-- Os senhores disseram que bastava um minuto -- informa-me a senhora loura, naquela língua lá dela, quando sai do carro que está a obstruir a rua, encavalitado no passeio junto ao semáforo. Se um minuto resolve o problema dos senhores, eu aguardo, tranquilamente. O carro da senhora loura e da amiga de cabelos morenos, apanhados, está de capô aberto, o mesmo acontecendo ao carro dos dois ditos senhores, que são tão jovens quanto as duas senhoras, que venho a descobrir que estão a fazer papel de salvadoras:
-- Estamos a ajudar os senhores com a bateria -- reforça a senhora loura, e eu assisto ali parado e impassível à boa ação a desenrolar-se à minha frente. Atrás de mim juntam-se outros penitentes, com uma serenidade taoista. Ah, o tempo esse grande escultor da paciência. Finalmente, encosto terminado, a senhora loura acena-me, feliz, enrolando os cabos, entra no carro, onde a senhora morena já está devidamente à pendura e, ao semáforo verde, arranca. Os jovens senhores, desempanados por fim, fazem-me sinal com o polegar para cima, um par de likes de vida real e eu avanço, passo o sinal, a rotunda, e é já na avenida rodeada de árvores que a gargalhada se me escapa, inexplicável, incontrolada e reconfortante.

16.8.17

Pequenos males

-- Is very small -- diz o russo, de olhar baixo, juntando o polegar e o indicador em arco, como se beliscasse o ar. A mulher do russo, a dois passos, acena a cabeça em confirmação penosa. O rececionista, mostrando a sua melhor empatia, dá sinal de compreender todo o âmbito do desaire. Tecla no computador e imprime. Entrega a folha ao casal, traduzida, assim me parece, em russo pristino pelo Google Translate, ou algo semelhante. O russo recebe, com evidente alívio, o papel, e volta a salientar a sua desvalência, com um encolher de ombros:
-- Very small English -- e repete o sinal denotativo da sua ínfima capacidade de entendimento da língua de Shakespeare e Sherlock. Evidentemente solidários, os clientes ao balcão deixam escapar então o coro de suspiros que guardavam com o maior estoicismo.

15.8.17

O caçador

Perla-lhe o suor a cabeça lisa e brilhante, escanhoada, ou já mesmo naturalmente glabra, que a idade a isso o habilita. Subiu até cá ao topo, como eu, mas mais carregado, que ando leve. Faço as contas mentalmente, que o ar raro ainda mo permite: entre o binóculo, o tripé, a câmara, e a desmesurada lente transporta com ele um valor superior ao do carro que o trouxe até mais não poder. A caça do amor é de altanaria, disse mestre Vicente. Só por amor à altanaria se caça assim, digo eu.

Sem esforço

Sem esforço, as águias dançam, acima de mim, de asas enfunadas, levadas pelas correntes do céu, como galeotas de corso.
Abaixo delas, sem esforço, apenas consigo mover os globos oculares para segui-las. Por vezes, mudo uma página, o que me exige esforço no polegar. Infinitamente mais elegantes as águias do que eu: trocava esta posição horizontal e as frases belas que leio por tal arte de voar à bolina. Pressinto-lhes a indiferença com que me olham, de cima, a mim, que a única proeza que almejo alcançar é observá-las enquanto, magníficas, navegam o azul lazúli dos ares.

14.8.17

O verão de Mr. Gordon (Epílogo)

«Imaginar que é possível reescrever o passado, é um desvario inútil», afirma Mr. Gordon, para logo complementar: «Mas quem de nós nunca sentiu a vontade de poder fazê-lo, ao menos uma vez?» Desenha uma linha reta na mesa, com o dedo. «Tive uma vida preenchida, exerci a profissão que escolhi, mas muitas vezes pensei: e se eu não tivesse tido que ficar e Rosa que partir? Que seríamos nós, agora?»

Gordon estava abalado mas não tinha nada partido. Rosa amparou-o até ao carro, levou-o à Covilhã, às urgências hospitalares, esperou com ele, conversaram como conhecidos de longa data — não mais do que isso —, deixou-o em casa, recusou o convite para um almoço tardio. «Tough», sorri Gordon. Mas ao entardecer ainda lhe telefonou, para saber dele. No domingo, ele sentia-se suficientemente bem para ousar conduzir e telefonou a convidá-la para jantar. Sentia-se, disse-lhe, em dívida para com ela, uma dívida de grandeza tal que nem mil jantares chegariam para pagar um por cento. A dívida fazia-o sentir como se andasse descalço pelas rochas, confessou-lhe. Do outro lado, ouviu uma gargalhada: «Para a próxima, vai descalço. Não tombarás de certeza.»

«Amanhã vou para Berlim», remata Gordon, examinando o copo de água borbulhante, raiado do reflexo verde da hera do caramanchão. Desde que tinha sido desmobilizado, nunca mais voltara à cidade onde ele e Rosa se conheceram. Acompanhou, em Denver, emocionado, a queda do muro em 1989, a unificação alemã. Mas voltar lá, sempre pensou, apenas com uma pessoa.

«E Rosa?», pergunto.
As maçãs do rosto de Mr. Gordon tornam-se mais salientes, os cantos da boca sobem em direção aos olhos vivazes: «Vamos juntos.» E resplandece.

[Parte V]

13.8.17

O verão de Mr. Gordon (IV)

«Eu e as montanhas temos uma relação conflituosa», diz Mr. Gordon. Arregaça a manga e mostra-me uma longa cicatriz no braço direito, ainda rósea. «E por vezes, elas levam a melhor.» Conta-me que uma vez, nas Rocky Mountains, teve que ser retirado de helicóptero, após uma queda que o imobilizou no hospital durante semanas. «Ganhei alguns lingotes de platina nos ossos.» Era mais novo, então: passados poucos meses, e alguma fisioterapia, voltou à montanha. «Agora esta, devo-a à Star Mountain», anuncia apontando para a cicatriz recente.

Mr. Gordon, na verdade não tinha um plano B para voltar à fala com Rosa, após a última recusa: queria apenas estar próximo dela. Sabia, ou intuía, que um dia o destino os colocaria no mesmo caminho, como o fez em Berlim, quando ela ia a correr à chuva, escorregou e não fora agarrar-se a ele, teria caído aparatosamente. Assim se conheceram.

Julho chegou. Gordon refugiava-se nos trilhos da serra, que lhe começavam a ser tão familiares como os que frequentava nas Rocky Mountains. A cada dia, os caminhos levaram-no para mais perto de Gouveia, a terra dela. A curiosidade metódica de geólogo amador impelia-o a trepar a zonas instáveis para recolher amostras. Um risco calculado, mas ainda assim um risco, que ele assumia com um zelo de colecionador. No segundo sábado de julho, ao final da manhã, num declive especialmente acentuado, sentiu um pé a deslizar, arrastando consigo o corpo que se enrolou sobre si próprio, um cilindro humano fora de controlo. Colocou instintivamente os braços em torno da cara e rolou, com a carne a macerar-se na descida como se estivesse a ser triturada numa mó. Uma pedra aguçada rasgou-lhe um lanho no braço. Quando finalmente parou, sentiu que os músculos não mais lhe obedeciam. Mexeu cuidadosamente as mãos, depois as pernas, ouviu-se respirar. Parecia inteiro, mas debaixo da pele o corpo era um saco cheio de vidro moído. Estava estendido num caminho de terra batida, o sol a pique, mordente. Com os olhos semicerrados, entreviu uma sombra por cima e, de seguida, uma voz a repreendê-lo: «Hartnäckiger Mann.» Sim, um homem teimoso. Era Rosa.

[Parte IV]

11.8.17

O verão de Mr. Gordon (III)

«Ela disse não.» Rosa mantinha a mesma determinação de propósitos que Mr. Gordon lhe conhecera em Berlim décadas atrás. Quando decidiu procurá-la, baseou-se nos dados que tinha dela: um nome e um local. Depois de semanas de pesquisa e de ajuda de um ex-colega de Berlim colocado no State Department, conseguiu contactá-la por correio eletrónico.

Não, não o queria ver. O passado deles ficara em Friedrichstraße; entretanto, tinha tido uma filha, um filho e já três netos, o casamento terminara nove anos antes e vivia agora entre Aveiro e a Serra da Estrela, sozinha e tranquila. Nem trocar fotografias, nem uma chamada telefónica, nenhuma proximidade: estava bem como estava. «Tough», diz-me Gordon, após o segundo café. Havia tirado o chapéu, segurando-o pela aba larga, abanando-o como se fosse um gigantesco leque. Rosa e Gordon são gente das montanhas, o que quer dizer que o seu grau de dureza se mede pela escala de Mohs: as palavras de Gordon não fariam qualquer risco na negativa de Rosa. Gordon é geólogo amador, sabe que as rochas estilhaçam sob o impacto de um escopro, mas moldam-se sob a água persistente. Decidiu fazer-se água. Em Junho, resolvidos os assuntos profissionais no Chidren’s Hospital Colorado, onde colaborava, voou para Portugal, alugou um carro, rumou à Covilhã, instalou-se para estadia prolongada. Não procurou Rosa, nem sequer ficou na mesma terra para não impor a sua presença, mas disse-lhe onde estava e deu-lhe um número de telefone para contacto. A resposta veio célere e curta: «Não.» «Tough», repete ele, enterrando o chapéu na cabeça até às sobrancelhas, o que faz com que o seu riso se assemelhe deveras ao de um garoto travesso.

[Parte III]

O verão de Mr. Gordon (II)

Mr. Gordon tira um retrato da carteira e passa-mo para a mão: uma rapariga de cabelos rubros, sorriso sereno, os mesmos olhos vivos que vejo à  minha frente. «Sondra, a minha filha.» Desvia a cara e fica a olhar o rio, a outra margem, o horizonte. «Morreu em 2012, em Aurora.» Numa sessão de cinema, à meia-noite, no Centro Comercial de Aurora, em Denver, um atirador matou vinte pessoas; Sondra estava entre elas.

Após o seu regresso a Denver, depois do destacamento em Berlin, Gordon estudou e passou a exercer pediatria e casou, aos trinta e dois anos, com Sarah, cinco anos mais nova do que ele, descendente de pai irlandês e mãe americana. Sondra foi a única filha do casal. Após o choque da morte de Sondra, a vida de Gordon e Sarah ganhou uma rotina triste e silenciosa. Para se afastarem da omnipresença da tragédia, viajaram: Canadá, Caraíbas, Hawaii. Mas a cada saída, Sarah cansava-se mais, a tez progressivamente mais sombria. Os dois últimos anos, não passaram das imediações de casa. Sarah morreu na véspera do Thanksgiving de 2016. Depois da partida dos irmãos e respetivas famílias, que compareceram no funeral e permaneceram uns dias, a vida de Gordon tornou-se tão árida quanto as Rocky Mountains, junto às quais cresceu e para onde se escapava nesses dias de chumbo, com esperanças de por lá se perder de vez. Regressava sempre, contudo. Foram as Rocky que lhe indicaram o caminho para outro, e maior, regresso. «Quando eu lhe falei das Rocky Mountains, Rosa contou-me da sua Star Mountain. Era para lá que Rosa voltava, quando saiu de Berlim», diz-me Mr. Gordon. «Para a Star Mountain», e sorriu com enlevo.

[Parte II]

10.8.17

O verão de Mr. Gordon

Os olhos de Mr. Gordon movem-se com vivacidade na face pintalgada pelo sol intenso da véspera e as palavras saem-lhe céleres no inglês além-Atlântico. Debaixo do caramanchão, no jardim semeado de estátuas de mármore onde nos encontramos, o Tejo espraia-se lá em baixo, à distância, do meu lado direito. O vento desafia as abas largas do seu chapéu de palhinha, ao jeito da representação do Infante ali perto, mas é mais seguro mantê-lo na cabeça do que pousá-lo na mesa. Havia-me perguntado se eu falava inglês, frente à Natividade de Ghirlandaio. Pois que sim. Vimos e comentámos os restantes em conjunto e continuámos a conversa na mesa café do Museu. Mr. Gordon nasceu no dealbar da década de cinquenta, em Denver, o terceiro filho de Annie, e de Charles, veterano de Iwo Jima, que casaram assim que este foi desmobilizado. Aos dezoito anos também ele, Gordon, entrou para o exército, vindo a ser colocado em Berlim, em plena guerra fria. Foi lá que conheceu Rosa, luminosa como as rosas no seu vestido de chita, radiosa como o amanhecer. Mr. Gordon mal sabia alemão na altura e ela não falava inglês, embora o seu alemão fosse fluente. Enquanto me conta dos seus cinco dias com Rosa, em Berlim, as palavras de Mr. Gordon tornam-se mais lentas, como se pretendesse agarrar as horas que precederam o embarque dela para Portugal. Tivesse na altura podido e não a deixaria partir; ou então, teria vindo com ela. Mas nenhuma das duas era opção. Apenas o nome da terra dela lhe ficou, e uma vontade de a voltar a ver que o perseguiu toda a vida e que finalmente o leva a estar aqui neste jardim, hoje.

[Parte I]

9.8.17

Ciência documental

A rapariga de face asiática, na mesa em frente, retira do saco a máquina — e fotografa a sopa. Depois, repete a operação, agora com o telefone. A sopa, que indiscutivelmente é feita com abóbora e cominhos, depois meticulosamente passada, e que apresenta uma bela e uniforme cor de cenoura, emoldurada pelo prato largo e branco, merece ser duplamente imortalizada — concordo em pleno.

7.8.17

la luna

todos os dias
tenho polido a lua
hoje resplandece

quando mirares
o espelho cósmico
refletirá o teu olhar

então ver-te-ei
para ti há a lua
por ti hei-me eu

Lado a lado

A linha que nos une é um horizonte vertical.

Qualidade fisionómica

«Cada coisa diz aquilo que é... o fruto diz ‘Come-me’; a água diz ‘Bebe-me’; o trovão diz ‘Teme-me’; e a mulher diz ‘Ama-me’»

[Kurt Koffka, 1935, Principles of Gestalt Psychology, pág. 7]

6.8.17

sonho do navegador

almejo alcançar
o mar
dos teus olhos
e nele
naufragar

Sentimentos transbordados


E onde colocarei aquilo que sinto e que transborda da arrumação que faço nas palavras?

Uma languidez, um murchar, uma saudosa indolência

«A generala não tem passado bem desde a sua partida para a malfadada Tien-Hó; o doutor Pagloff não lhe percebe o mal; é uma languidez, um murchar, uma saudosa indolência que a conserva horas e horas imóvel sobre o sofá, no Pavilhão do Repouso Discreto, com o olhar vago e o lábio cheio de suspiros... »

[Eça de Queirós, O Mandarim]

4.8.17

Posições extremas e perigosas

— Oh Moraes, o mundo está a radicalizar-se entre duas posições extremas e perigosas — bramava J. E. de Andrada. — Não concorda, Moraes, você, que é um homem lido e investido?

— Pois claro que concordo, Andrada, mas estas coisas nas Américas e nos Orientes, são boas para quem ganha o pão nosso no Forex.

— Mas quem é que está a falar disso? — clamou J. Eustáquio. — Eu estou a referir-me é à divisão do mundo entre os que acham que podem riscar e, oh sacrilégio, dobrar as páginas aos livros, e os outros, aqueles como nós que defendem os valores tradicionais, o livro impoluto, imaculado desde a sua conceção! Pois não concorda, oh Moraes?

— Já eu, sublinho a torto e a direito — sentenciou, enterrado no seu sofá, o pálido J.

— Mas você não é exemplo para ninguém — atirou J. E. de Andrada. — Você, J., lê tudo em ecrãs, sublinha, mas é de dedo em riste, que eu bem sei. Livros lidos em ecrãs não são livros, são pasquins, como aquele hebdomadário que edita lá nas internetes.

— Pauvre, pauvre J. — murmurava a dulcíssima Orchidée. — Mon amour, o J. é uma alma atormentada, tem que ter um sublinhar orgânico, n’est ce pas?

— Orgânico ou não, sublinhar é sublinhar, não acha você, oh Moraes? Quem sublinha num ecrã, sublinha num livro de papel, e dá-se por isso, está a grafitar paredes, de lata de spray na mão, como um adolescente de boné de través. Sublinhar livros ou, oh sacrilégio, dobrá-los, é a antecâmera do vandalismo, o regresso à barbárie, coisa de descendentes de hunos. Você descende de hunos, J.?

— Eu sou de ascendência nórdica — disse J. levantando os olhos do telefone, onde teclava intrepidamente, como se não houvesse dia seguinte. Do outro lado da sala, Orchidée soltou um sorrisinho, saltitante como um arpejo.

— Nórdicos, viquingues, hunos, é tudo a mesma coisa. Destruidores da cultura, da civilização, das páginas dos livros. Uma praga, pois não acha, oh Moraes?

— Uma praga, Andrada, indeed. Sem dúvida, um tema para colocar na agenda da próxima cimeira de Davos.

— Não esperava menos de si, Moraes. Já aqui do J....

J. olhava fixamente para o telefone, quando de repente deu um salto e lhe saltaram lágrimas dos olhos, de riso. Do outro lado da sala, também de telefone na mão, Orchidée observava com ar triunfante.

— Eu bem digo, já aqui do J.... — concluiu Andrada. — Esta gente dos pasquins das internetes, dá-se por eles e dão em vândalos grafitadores. Pois não acha você, oh Moraes?

— É colocar-lhes desde logo pensos rápidos nos dedos para que não sublinhem nos ecrãs, Andrada — sugeri eu.

— Há que cortar o mal pela raiz! — corroborou o lente jubilado do Magdalen College. 

Orchidée e J. estavam, por essa altura, demasiado embrenhados nos telefones para lhe prestar atenção.

[A. de Moraes]