25.2.18

Um cavalheiro

«Se o senhor fosse um cavalheiro», interpela-me o desconhecido quando atravesso a rua, antes de se alongar sobre o que eu me falta para o ser. Resisto à tentação de itemizar quantas outras, mais vastas, mais intransponíveis, menos óbvias, lacunas se interpõem entre mim e o arquétipo, e retribuo-lhe os votos de boa tarde, que ele, que pena, não me apresentou.

No meio do oceano

Descubro que preciso de alargar a biblioteca, de mais estantes, de anexar divisões, espaços, criar outros, porque os livros que vierem não merecem menos do que os que já cá estão. Descubro, ao mesmo tempo, que me falta um livro, que não se perdeu, assim creio, simplesmente não o encontro, é de poesia, e os livros de poesia são mais urgentes do que quaisquer outros. Ainda que o mande vir de novo do outro lado do Atlântico, ideia absurda, uma vez que tenho a certeza de que o encontrarei, um dia, nunca levará menos de uma semana a chegar. Mas uma semana é menos que o tempo que me separa desse dia. E como é que se sobrevive uma semana, a morrer de sede no meio do oceano?

paradoxo

se não te vir
e te disser
dos teus dedos nascem rosas
acreditarás em mim?

Epifania

Um dia compreendemos que perceber de tudo se alarga, até ocupar por completo, o espaço destinado a perceber de nós.

24.2.18

O memorioso

Se nos fosse concedido o dom, por algum beneplácito dos deuses ou de um dos artefactos dos homens, de recordarmos o prazer, revivendo-o com o júbilo de todas as células do corpo, por um efeito extraordinário de poder de memória, mas se tal dádiva viesse inseparável da recordação da dor, de senti-la como se fora o desentrançar de todos os nervos que nos submetem a existência, aceitá-lo-íamos?

Se eu quisesse

«Se eu quisesse, enlouquecia», diz Herberto. Alas, poor Herberto! Essa é a parte sedutora do percurso. A labiríntica, a árida, a tremenda, é a inversa.

18.2.18

O som do abraço

Gustavo Santaolalla, Iguazú

Como jóias

Dia após dia penso em ti assim que desperto. Alguém colocou cantos de pássaros no ar como jóias.

[Com vestígios de Anne Carson.]

Resistência

Ainda é demasiado cedo para percebermos que livros terão sido escritos em dois mil e dezassete, mas quanto aos filmes, desses sabemos. Resistir também pode ser fazer melhor, com mais significado, com mais profundidade. Dezassete, foi um ano de resistência, para todos os que se preocuparam com a serpente que se vislumbra a crescer dentro do ovo translúcido. Por isso, e certamente não por coincidência, não há ano comparável nesta década, até agora, no que ao cinema diz respeito. Como se realizadores, atores, produtores, todos na cadeia de criação se tivessem apercebido que a diversão e os múltiplos níveis de significado não são incompatíveis. Um filme não tem que ser panfletário para ser eficaz. Em dezassete, redescobriu-se a arte do dizer subtil no cinema. Paradoxal, a génese da arte. Demasiado óbvias as causas, limita-lhe o apelo, torna-a perecível. Demasiado afastadas, a arte até pode ser magnífica formalmente, mas também será magnificamente vazia, igualmente de vida breve, ou de vida com interesse breve. Dois mil e dezassete foi o um ano de equilíbrio: causas próximas em embrulho transparente. Talvez num ano de tal desequilíbrio, a arte multiplique o seu peso, para que na balança que nos pondera as angústias, ao menos uma espécie de equilíbrio se torne possível.