13.12.17

A metáfora

Talvez não existisse outra metáfora mais cristalina: duas pétalas da mesma flor. Assim os via.

11.12.17

Uma forma

Se o outro, o saudoso, o insofrido, o cartesiano, o cerebral, partisse, eu seria tranquilo, álacre, intuitivo, leve. Talvez a felicidade tivesse outra forma. Uma forma. Mas o outro continuaria a ser o outro, e eu não seria eu.

A luz e as sombras

Sonhamos, com frequência, a preto e branco e acordamos em cores. Os sonhos aproximam-se dos primórdios do cinema [ou os primórdios do cinema aproximam-se dos sonhos]. Ambos estão próximos da mais primordial das cenas: a luz e as sombras.

[A partir dos diários de Jean Baudrillard, Cool Memories.]

10.12.17

Primeiro violino

Ao ver a forma como o primeiro violino conduz a orquestra, maestro por inflexões, um arquear de sobrancelha, um inclinar de face, um certo ângulo do arco, um meneio de cabeça, cordas, metais, andante, suavíssimo, imagino o ser supremo a dirigir assim o vento, um golpe de olhar e este revolta-se, enovela-se, arrasta consigo o ar no compasso certo. Os melhores maestros, os que sabem no coração, par coeur, o número de cada compasso, deixam os músicos dirigir a orquestra de um que cada um é. O ser supremo, se existir, consente que o vento faça o que sabe melhor fazer, rebelar-se, encher espaços, atemorizar almas incautas. Inútil tentar adivinhar a pauta do crescendo do zéfiro até à rajada. No que toca aos desígnios da orquestra deste primeiro violino, a única resposta correta é olvidar a pergunta.

9.12.17

À espera da onda

Sentado na areia, à beira da água, as pernas cruzadas, o sol de frente perfurando-me os olhos como um punção, enquanto o mar se insinua pelo meu aroma, deixando pleno de sal e iodo o ar que respiro. Sou a minha própria estátua de areia, eu esculpido por mim com as mãos em concha, saibro escorrendo por entre os dedos virtuosos. À espera de uma onda ao entardecer, da lâmina de luz, espada de prata que se abaterá sobre a minha construção meticulosa. Ao tempo do impacto, serei e não serei. Tudo o que de mim existe, continuará. Cada porção, cada átomo, será tão eterno quanto o universo. Mas, pós-onda, eu serei tão efémero quanto um incêndio nesta superfície azul. Quando as águas recuarem sugadas pelo horizonte, parecerá até que nunca estive aqui.