29.6.17

Encontro de bloggers

O estilo de escrita é diferente, mas o fato dele é igual ao meu.

28.6.17

destinatária

as minhas palavras dirigem-se para ti

como o meu tempo é dirigido por ti

céleres são as palavras que voam para ti

glacial é o tempo que se escoa vazio de ti

Uma ameaça ao gnomo

Os livros desaparecem-me para um limbo qualquer até que num dia o gnomo sub-reptício que os levou os devolve para um local mesmo em frente aos meus olhos, daqueles de sonora palmada na testa e insidiosa interrogação: porque é que eu não pensei nisto? Anda um livro meu no limbo há uns meses, é um livro pequenino, mas tem valor sentimental. Já revirei tudo o que havia para revirar nas estantes e o livro permanece regaladamente nas mãos do tal gnomo, que eu bem o imagino, o vira-casacas. Fará daqui a nove dias quatro anos que coloquei aqui no blog [ainda lhe chamava blogue, então] um poeminha de lá. A leitora não tem forma de comprovar, devido a esta estapafúrdia mania minha de enviar para rascunho os posts passados de prazo [chamar a isto um conceito vago é o eufemismo dos eufemismos], mas pode aceitar a afirmação à confiança. Em desespero de casa e de causa, hoje deparei-me com o livro numa estante de livraria, e o livreiro disfarçou o melhor que pode o riso discreto quando me viu bailar de alegria, aceitou de bom semblante uma nota e um nif, e o equilíbrio bibliográfico foi reposto. Daqui a oito dias se, entretanto, me lembrar, publico o mesmo poema, mas desta vez copiado do livrinho novo. Isto é uma promessa e ao mesmo tempo uma ameaça ao gnomo. Ai dele se me fizer passar uma vergonha aqui em frente à leitora, não é mesmo?

27.6.17

de surpresa

quando o final da tarde
rasgou um quadrado azul
por entre a moldura branca das nuvens

as folhas da laranjeira
apanharam-me de surpresa
e foi o teu nome que desenharam

Ânsia desusada de crocante

Dona Aureliana assoma-se da cozinha para explicar a Dona Sarita o segredo para a delícia que está no forno ficar crocante. Pelo meio, bondia-me: Bom dia, doutor. Bom dia, Dona Aureliana, bondio-a eu de volta. Sarita, é um café para o doutor, ordena a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador. Cheio, ecoa Dona Sarita. Cheio sai, e eu saio com ele, periclitante na chávena, para a esplanada. Hoje bebi quente, porque sei que a leitora fica horrorizada pelo desperdício de calor do café, que é como quem diz, pelo desperdício da flor do café. Esta minudência inconsequente é escrita quando um segundo café já ia bem, já combinava com o final da manhã. Mas terá que aguardar pelo início da tarde. A ideia do que quer que seja o crocante que estava no forno, que tinha segredo contado em voz miudinha, não me sai da cabeça contudo, dá-me fome antes do tempo. Ainda me rendo, o café da tarde está a candidatar-se a ser tomado com o sol a pique. Certa vez, Kafka foi visitar o amigo Max Brod, e ao passar despertou o pai deste, que dormitava no sofá. Kafkiano como só ele, sussurrou a Brod sénior: Eu sou só um sonho, pode continuar a dormir. Bem sigo o exemplo, bem digo à vontade de ir almoçar a desoras: É só um sonho, dorme mais um bocadinho. Mas a rebelde continua aqui a insistir numa ânsia desusada de crocante. Orwelianamente, posso fingir que esta fraqueza é uma força. Que almoçar mais cedo me dará vigor redobrado para uma tarde mais produtiva. Mas sou muito fraco a convencer-me a mim próprio do que não quero ser convencido. A bem dizer, é uma força que tenho.

26.6.17

arte de tecelagem

quisera ser tecelão
entrelaçar na tua
a minha mão

e rematar-nos
sem costuras
nem nós

só nós

A chegada da nostalgia insidiosa

Entre a minha mesa e a dele não havia senão espaço vazio. Chegou, pela mão do empregado, a taça de Chimay e ele, que estava com o computador aberto, fotografou-a e teclou um arpejo rápido. Quase de imediato chegaram elas, um abraço longo na de olhar brilhante. As mãos entrelaçadas em cima da mesa. Nenhuma escolheu Chimay, mas a de olhar brilhante pediu o mesmo que eu bebia. Foi então que a melancolia entrou pelos vidros amplos e apanhou o meu melhor ângulo. É o problema das janelas vastas: assim como não impedem os raios de sol desenfreados, pouco ou nada barram a chegada da nostalgia insidiosa.

Que precede o desmaio

Na mesa em frente [onde mais?] a cliente com todas as unhas de ambas as mãos em que foi aplicado um lacado Steinway, exceto as dos anelares, que são cinzentas, analisa, a microscópio de distância, a cliente na mesa da diagonal, a que tem todas as unhas daquele tom rosa que precede o desmaio.

25.6.17

Estoicismo dominical

Escreveu Cesário: «Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.»
Estou convicto de que os versos lhe apareceram a um domingo à tarde. A soturnidade e a melancolia a que se refere têm aroma dominical. Creio também que Cesário devia ser discípulo de Séneca. O desejo é absurdo porque o sofrimento já lá está. Abraçando os ensinamentos dos estóicos, Cesário vem anunciar que o que quer é o que tem. Nem mais. Anulando a vontade de ter o que não tem, atendo-se apenas ao que tem, vive numa agonia serena. Se me tornar estóico, começarei ao domingo. Tal é a soturnidade, tal é a melancolia, que ganho logo um avanço até pelo menos meio da semana. Se é para sofrer, que seja assunto sério.

Lágrimas na chuva

Vi coisas em que vocês, gente, não acreditariam. Vi naves de ataque em fogo no ombro de Orion. Assisti ao brilho de feixes-C no escuro, perto do Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Tempo de morrer.

[Do monólogo de Roy Batty, em Blade Runner.]

Desobediência civil

Virgílio deixou a dois amigos a tarefa de destruir a Eneida, por publicar. Os amigos desobedeceram. Kafka incumbiu Max Brod de queimar a sua obra. Brod, como se sabe, rebelou-se. Santa Rita Pintor pediu que lhe destruissem os quadros. Mais submissos, os amigos ainda deixaram algumas, poucas, pinturas. Estava eu neste elencar, a pensar como é que será neste mundo digital desmaterializado e lembrei-me: este blog, que fará um dia destes quatro anos [eu aviso, quando chegar a altura] tem algures nos rascunhos mais de três mil ex-posts. É certo que pouco há aqui de mérito, menos ainda de valor. Mas se um dia me quiser desfazer disto, faço um apagamento sistemático, um posticídio, ou deixo a palavra-passe e instruções a um amigo, esperando que faça o que eu não tenho coragem para fazer, e secretamente ansiando que seja um desobediente civil, tão meu amigo que não faz de certeza o que eu lhe pedirei veementemente para fazer?